Fotografia capturada em Adma, Líbano, mostrando uma divisão nítida entre céu azul ensolarado e nuvens carregadas de chuva, separadas por uma linha quase imperceptível no horizonte. Imagem simbólica da desigualdade geográfica e emocional — usada como inspiração para o texto 'Na Fronteira da Chuva' por Jeane Satie.

Na Fronteira da Chuva: Quando a Vida é Apenas uma Questão de Dois Passos

Adma, Líbano – Onde o céu desenha fronteiras invisíveis

🌍 English • At the Rain’s Edge: When Life Is Just a Matter of Two Steps

By Jeane Satie | November 21, 2025
Adma, Lebanon — where the sky draws invisible borders

Today, in Adma — a town north of the Middle of the World — the universe gave me a lesson in human geography. Before me, an invisible line separated rain from sun. On one side, the water that gives life. On the other, the light that warms. And I, in the middle, with my Beirut Birds in mind, finally understood what it means to be born on the “wrong” side of the border.

The Beirut Birds I paint are not just art — they are witnesses.
Witnesses that some are born under bombings, while others under applause.
That some inherit rubble, others inherit empires.
And all of it — all of it — determined by mere kilometers of latitude and longitude.

Two Steps
Before me, rain fell heavily on one side of the street. On the other, the sun shone relentlessly.
Two steps.
Just two steps separated soaked from dry, what drenches from what warms, what nourishes from what merely illuminates.

And I wondered:
How many lives are defined by these two steps?
How many destinies drawn not by merit, but by geographic accident?
How many Beirut Birds will never fly — because they were born inside invisible cages?

Borders That Exist Only for One Side
I learned, watching Beirut’s sky, that borders exist only for one side.
While our dreams require visas, their drones cross freely.
While our passports are questioned, their weapons know no barriers.

Borders, after all, are not lines on a map —
they are hierarchies of power disguised as geography.

My art has always spoken of borders — between countries, cultures, pain and beauty.
But today I understood:
The cruelest border is the one we cannot see — yet carry in our skin, our accent, our passport, our chances.

The Flight of the Birds
The Beirut Birds fly not because they are stronger or weaker —
they fly because they’ve learned that the sky is the same for all, even when the ground is not.
They fly because they know that somewhere, people like you and me are trying to understand these two steps that separate luck from fate.

I once believed borders were just imaginary lines…
Until I realized some lines decide who eats and who starves, who lives and who dies.

I remembered Arnaldo Antunes, in Marisa Monte’s voice:
“…This world is not mine, this world is not yours… I am just passing through.”

Beirut, the Soul-City
As I selected music for this reflection, I couldn’t avoid including “Le Beirut” — whether in the version that honors the city, or in the irreplaceable voice of Fairouz.

Because Beirut is not just a place — it’s a state of soul.
It’s the city that teaches: beauty can bloom even among ruins, life persists even when all seems lost.

The Privilege of Crossing
As I closed my camera, the rain stopped.
The sun reached where I stood.
And for the first time, I understood my privilege:
I can cross these borders.

My question is:
What will we do with this privilege?

— Jeane Satie
Japanese-Brazilian visual artist in Beirut
Creator of the Embassy of Bridges and the Beirut Birds series

Hoje, em Adma, uma cidade ao norte do Meinho do Mundo, o universo me deu uma aula de geografia humana. Diante de mim, uma linha invisível separava a chuva do sol. De um lado, a água que dá vida. Do outro, a luz que aquece. E eu, no meio, com meus Pássaros de Beirute na mente, entendendo finalmente o que é nascer do “lado errado” da fronteira.

Os Pássaros de Beirute que pinto não são apenas arte — são testemunhas. Testemunhas de que alguns nascem sob bombardeios enquanto outros nascem sob aplausos. De que alguns herdam escombros, outros herdam impérios. E tudo isso — tudo — determinado por meros quilômetros de latitude e longitude.

Dois Passos

Na minha frente, a chuva caía pesada num lado da rua. Do outro, o sol brilhava implacável. Dois passos. Apenas dois passos separavam o ensopado do seco, o que molha do que aquece, o que nutre do que apenas ilumina.

E eu pensei: quantas vidas são definidas por esses “dois passos”? Quantos destinos traçados não por merecimento, mas por acidente geográfico? Quantos Pássaros de Beirute nunca conseguirão voar porque nasceram em gaiolas invisíveis?

As Fronteiras que Existem Apenas para Um Lado

Aprendi, olhando para o céu de Beirute, que as fronteiras só existem para um lado. Enquanto nossos sonhos precisam de vistos, seus drones atravessam impunes. Enquanto nossos passaportes são questionados, suas armas não conhecem barreiras. As fronteiras, afinal, não são linhas no mapa — são hierarquias de poder disfarçadas de geografia.

Minha arte sempre falou de fronteiras — entre países, entre culturas, entre a dor e a beleza. Mas hoje compreendi: a fronteira mais cruel é aquela que não vemos, mas que carregamos na pele, no sotaque, no passaporte, nas oportunidades.

O Voo dos Pássaros

Os Pássaros de Beirute voam não porque são mais fortes ou mais fracos — voam porque aprenderam que o céu é o mesmo para todos, mesmo quando o chão não é. Voam porque sabem que, em algum lugar, existem pessoas como eu e você, tentando entender esses dois passos que separam a sorte do azar.

Sempre acreditei que fronteiras fossem apenas linhas imaginárias… Até entender que algumas linhas decidem quem come e quem passa fome, quem vive e quem morre. Lembrei de Arnaldo Antunes na voz de Marisa Monte:

“…Esse mundo não é meu, esse mundo não é seu… Estou aqui de passagem”

Beirute, a Cidade-Alma

Enquanto seleciono as músicas para esta reflexão, não posso deixar de incluir “Le Beirut” — seja na versão que homenageia a cidade, seja na voz inigualável de Fairouz. Porque Beirute não é apenas um lugar — é um estado de alma. É a cidade que ensina que a beleza pode florescer mesmo entre as ruínas, que a vida persiste mesmo quando tudo parece perdido.

O Privilégio de Cruzar

Enquanto eu fechava minha câmera, a chuva parou. O sol chegou até onde eu estava. E pela primeira vez, entendi meu privilégio: eu posso cruzar essas fronteiras.

Minha pergunta é: o que faremos com esse privilégio?

Sobre os Pássaros de Beirute: Esta série artística explora as fronteiras invisíveis que definem nossas vidas, usando a metáfora de pássaros que voam sobre uma cidade que nunca para de renascer.

Pássaro estilizado em mosaico de azul profundo, turquesa e dourado, sobre fundo texturizado em tons terrosos. Obra da série Pássaros de Beirute por Jeane Satie, feita em acrílico sobre tela, simbolizando renascimento após a explosão do porto de Beirute
🕊️ Mosaico Medi — não um pássaro qualquer. Um ser nascido quando o chão tremeu, e o céu rachou. Feito de fragmentos que insistiram em se reorganizar: não em escombros, mas em penas. Não em lamento, mas em voo. 🔵 Azul do mar que testemunhou ⚪ Turquesa da esperança que não se cala 🟡 Dourado da luz que resiste à escuridão Arte como ato de recusa ao apagamento. Como gesto de amor à cidade ferida. ✨ Disponível em prints e produtos sob demanda 🌍 Do Líbano para onde a alma reconhecer esse canto 🔗 jscreative.art #PássarosDeBeirute #MosaicoMedi #JeaneSatieArte

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