Foto de Aisha criança em Zahle, no Meinho do MUndo (Líbano) brincando com um canhão de luz. Sua mão está iluminada pelo feixe, e ela olha para frente com expressão de encantamento e curiosidade. Imagem carregada de memória, luz e simbolismo.

Duas medicinas, um coração: carta de uma artista para a filha que é pura arte

Two Medicines, One Heart: A Letter from an Artist to Her Daughter, Who Is Pure Art

By
Jeane Satie
November 5, 2025

Aisha, your name doesn’t mean “Alive” by accident.
And you didn’t wrench the scissors from Dr. João’s hand by chance.

I write this letter from Beirut, while you walk your path in medicine, far away.
And I realize: each in our own way, we are learning to practice the same art —
the art of healing.

Parallel Medicines

My clinic is the studio.
My patients are memories, absences, longings that need shape and color so they don’t vanish.

My prescription?
Brushes that translate love into images.
Paints that turn loneliness into bridges between us.

You study to learn how to fight for life — pulling people from death’s grip.
I learn, stroke by stroke, to fight for life with brushes — pulling beauty from chaos, hope from destruction.

Your medicine heals bodies.
Mine heals souls.

And deep down, we’re both part of the same struggle:
against death, against forgetting, against the dimming of lights.

Learning to Fly When the Ground Gives Way

Each Bird of Beirut I paint is a piece of me learning to fly —
just as you flew to follow your dream.

This series was born after the 2020 explosion, when I realized:
we Lebanese (and I, a Brazilian who chose this ground) must learn to fly —
even when there’s no solid earth beneath our feet.

Each Godiva I create carries another medicine:
the reminder that our strength has always lived above the shoulders —
in the lifted head, in the gaze that confronts.

Women who show their face — not just their body.
Women in vibrant colors who refuse to be objects.
Women who exist beyond what the world expects of them.

Like you, Aisha.

The Beauty in Imperfection

From my Japanese grandparents, I inherited wabi-sabi:
beauty lives in imperfection, in transience, in incompleteness.

My works carry this.
They are not perfect. They are alive.
They breathe. They bleed. They fly.

Just like us.

A Final Note

Keep wrenching scissors from the hands of fate, my Life.

Meanwhile, I paint our empty nests with the colors of hope —
and of the pride I feel, watching you soar.

With love and fresh paint,
Mama

Aisha, seu nome não significa ‘Viva’ à toa. E você não arrancou a tesoura da mão do Doutor João por acaso.

Escrevo esta carta de Beirute enquanto você segue seu caminho na medicina, lá longe. E percebo que, cada uma à sua maneira, está aprendendo a praticar a mesma arte: a arte de curar.

Medicinas paralelas

Minha clínica é o ateliê. Meus pacientes são memórias, ausências, saudades que precisam de forma e cor para não desaparecer.

Minha receita? Pincéis que traduzem o amor em imagens, tintas que transformam a solidão em ponte entre nós.

Você estuda para aprender a lutar pela vida, arrancando pessoas das mãos da morte. Eu vou aprendendo a lutar pela vida nos pincéis, arrancando beleza do caos, esperança da destruição.

Sua medicina cura corpos. A minha cura almas.

E no fundo, somos ambas parte do mesmo combate: contra a morte, contra o esquecimento, contra o apagar das luzes.

Aprender a voar quando falta o chão

Cada Pássaro de Beirute que pinto é um pedaço meu aprendendo a voar – assim como você voou para seguir seu sonho.

Essa série nasceu após a explosão de 2020, quando percebi que nós, libaneses (e eu, brasileira que escolheu este chão), precisamos aprender a voar mesmo quando nos falta terra firme sob os pés.

Cada Godiva que crio carrega outra medicina: o lembrete de que nossa força sempre esteve acima dos ombros, na cabeça erguida, no olhar que enfrenta.

Mulheres que mostram o rosto, não apenas o corpo. Mulheres de cores vibrantes que recusam ser apenas objeto. Mulheres que existem além do que o mundo espera delas.

Como você, Aisha.

A beleza na imperfeição

Herdei de meus avós japoneses o conceito de wabi-sabi: a beleza está na imperfeição, na transitoriedade, no incompleto.

Minhas obras carregam isso. Não são perfeitas. São vivas. Respiram. Sangram. Voam.

Assim como nós.

Um recado final

Continue arrancando tesouras das mãos do destino, minha Vida.

Enquanto isso, eu pinto nossos ninhos vazios com as cores da esperança – e do orgulho de ver você voar.

Com amor e tinta fresca,
Mama

Obras mencionadas nesta carta:

🐯 Fairouz Avatar

A diva libanesa que virou oráculo da resistência. Em seus olhos, o peso de mil histórias. Em suas orelhas de tigre, a herança selvagem de quem não se curva.

🌊 Pássaro Mediterrâneo

O voo que carrega o mar dentro de si. Azuis do Mediterrâneo dançando no caos, numa coreografia de resiliência e beleza imperfeita.

[imagem + link para compra]


Explore mais da série:
Pássaros de Beirute: a arte de voar sem chãoLoja
Godivas: mulheres que mostram a caraLoja

Similar Posts

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *